Carol Passos

Crônicas e percepções. Nem tudo que escrevo aqui é real

Quando a gente chega em uma certa idade é impossível ignorar o tempo. Começa com uma lombar que trava quando você tem uns 30 e poucos e muda sozinha uma mesa de lugar. O tempo não tem hora para agir.
Na série de eventos que me distanciam da juventude, recentemente, me dei conta de que estou quase velha demais para ter filhos. Quando tinha uns 10 anos uma vizinha me perguntou quantos filhos eu queria ter. Respondi: “nenhum”. Isso causou um desconforto que até eu mesma na minha percepção infantil senti. Ela sentenciou insatisfeita: “vai ser freira, então”. O filho de alguém eu tinha que carregar.
Que peso para uma menina de 10 anos definir o tamanho da prole que vai deixar no mundo. Na época, eu só queria dar conta da lição de matemática, o que já era uma saga digna de noites em alerta e dores de estômago.
Os anos se passaram e cursei uma trajetória que me permite entender que o que chamam de “destino”, na maioria do tempo, é carregar nas costas o que esperam de nós. Neste exercício, quando se é mulher, a cada passo que se dá a carga aumenta, mas você nunca será suficientemente forte. Estamos sempre errando em algum ponto e curvando a lombar por culpa de nos sentirmos fracas.
Depois dos 30 anos, quando as costas já não são mais as mesmas, os bebês começam a surgir. Uma colega do primeiro grau “ganhou” uma filha, uma conhecida do bairro acabou de dar a luz a gêmeos, o ex-namorado já tem dois meninos. E o facebook começa a ser populado por bochechas, cabelinhos, mãozinhas que abraçam brinquedo, primeiras palavras e a papinha que o neném deixou cair. Amo ver bebês e crianças crescerem. Eles são a lembrança de que o tempo é agridoce e bonito.
Aos 33 anos, quando me vi sozinha após o fim de um longo relacionamento, chorei um dia inteiro com as costas no chão porque meu prazo de validade para engravidar começava a expirar. Hoje, cinco anos depois, gargalho com a cena. Eu nunca sonhei com um um bebê crescendo dentro de mim. As lágrimas daquele dia descarregaram uma série de expectativas erguidas em mim.
Em uma conversa com amigas, uma delas declarou que quer ter filhos logo, pois eles demandam energia e você precisa ter lombar para acompanhá-los. Com o tempo, eu me acostumei a ser uma das mais velhas do meu grupo de amigos — raramente eles lembram disso. Quando falam de bebês e crianças não opino. Cada um sabe do seu e eu ainda não sei do meu. Curiosamente, minha lombar está melhor do que nunca, minha postura também.

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