Carol Passos

Crônicas e percepções. Nem tudo que escrevo aqui é real

quando eu era criança, os vagalumes indicavam a chegada do verão. lembro de uma noite em especial em que ficamos acordados até tarde. não era comum as visitas ficarem muito tempo, mas era dezembro e estava calor. a noite estrelava e tudo parecia bem.
passamos a noite ouvindo os adultos contarem histórias, rirem. comemos na varanda atrás de casa e só havia luz ali. diante de nós, a vida seguia entre árvores, grama e umidade. aquela foi a noite mais luminosa que guardei.
depois que o sol se punha, cresci assistindo ao breu da janela do meu quarto, pois a casa, afastada da rua, só se iluminava quando queríamos. me acostumei com os bichos que entravam pelas frestas das janelas. os besouros que eu tirava pela janela com a mão, pra não machucá-los e pra que seguissem a vida e me deixassem dormir. havia ainda mariposas, aranhas, pernilongos e insetos de todo tipo. deles eu não tinha medo.
minha casa despertava curiosidade nas crianças que se empolgavam em passar a noite, mas pouco sustentavam a escuridão. acordavam no meio da noite assustadas sem enxergar holofotes da rua e pediam colo das mães.
além do breu havia o silêncio que, esse sim, não me deixava dormir. quando tudo estava quieto, a casa estalava e mesmo o menor dos movimentos se tornavam ensurdecedores. nessas horas, na minha cabeça, tudo podia acontecer e eu passava a noite em sentinela mirando o teto e inventando formas de me salvar.
porém, nas noites em que tinha vagalumes, eu não chegava acordada até a manhã. acompanhava enquanto ele dançava trazendo luz pelo quarto. isso me aquietava e me botava no sono mais uma vez.
depois de muitos anos, há algumas semanas, vi um vagalume. havia muito barulho dentro e fora e eu tentava me livrar da luz da rua escondendo o rosto com a costa de uma das mãos sobre os olhos, como me acostumei a dormir depois que deixei a casa.
seguindo o ponto de luz no quarto, lembrei daquela noite de verão, dos sorrisos e do quintal. senti o calor da memória e o conforto das coisas que vivi. recordei que o dia amanhece e, com ele se vão alguns dos barulhos que criei à noite. a vida segue depois da escuridão, mesmo que ela volte a assombrar e não deixe dormir.

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