Carol Passos

Crônicas e percepções. Nem tudo que escrevo aqui é real

Margherita Mazzucco (Lenu) e Gaia Girace (Lila) na série Amiga Genial (My Brilliant Friend). Foto: HBO, reprodução

Preciso começar esse texto falando algo que muita gente já sabe: Elena Ferrante não se chama assim. É um pseudônimo, um nome que ela escolheu para escrever. Não se conhece a verdadeira identidade dela, nem mais detalhes sobre como ela é: idade ou até mesmo gênero. Sabe-se que Elena é italiana e a suspeita mais difundida é que ela seria Anita Raja, tradutora de literatura alemã e casada com Domenico Starnone, escritor italiano. 

Dizem isso porque um repórter italiano chamado Claudio Gatti iniciou em 2016 uma investigação para tentar descobrir a identidade de Elena. Na pesquisa, ele identificou um aumento desproporcional da renda de Anita e uma mudança no número de imóveis registrados em nome do casal. Outra coincidência é que Anita também é colaboradora da editora que publica os livros de Ferrante. Mas nada se confirmou. Obviamente Anita e Starnone ficaram estarrecidos com a violação da privacidade e desmentiram tudo. 

Importante dizer que a suspeita cresce pelas semelhanças na escrita de Domenico e Elena. Eu li apenas um livro dele, chamado Segredos, e o estilo realmente é muito parecido. Por isso, outra teoria é que ele usa o pseudônimo Elena para escrever os livros “femininos”, o que eu considero uma bobagem. Para mim, Anita pode ser a autora e o casal deve revisar o texto um do outro, por isso a semelhança. Sabe aqueles casais que ficam parecidos com os anos? Acredito que esse seja o caso, porém Elena escreve melhor que Domenico, na minha opinião (lembrando que é baseada em apenas um livro).

Uma obra cheia de similaridades 

A tetralogia é o grande sucesso de Elena Ferrante, tanto que já ultrapassou 16 milhões de cópias vendidas em todo o mundo. Quando Amiga Genial foi lançado em 2011, a autora pediu à editora que as artes das capas fossem parecidas com a dos livros vendidos em banca, como os Júlias da vida. A estratégia era que as pessoas encarassem os quatro títulos (Amiga Genial (2011), História do Novo Sobrenome (2012), História de Quem Foge e de Quem Fica (2013) e História da Menina Perdida (2014)) como uma literatura acessível. Deu certo. 

Até hoje parte da crítica (principalmente os homens) torcem o nariz para a obra da Elena pelo simples fato de que ela vende bem. Também é comum as pessoas desdenharem por considerarem que os livros são escritos para mulheres, o que demonstra, além do machismo, a limitação da maneira como se encara a literatura e a desvalorização das autoras. 

Não vou fazer um ensaio sobre o tema, tampouco a resenha dos livros, pois há muito material sobre isso na internet, mas antecipo que os quatro livros simbolizam os pontos altos de Elena. No entanto, particularmente, meu livro preferido dela é A Filha Perdida, publicado em 2006. Foi o primeiro que li, apesar de ter iniciado antes Amiga Genial e Um Amor Incômodo (1992) – que ainda não terminei de ler. 

A Filha Perdida conta a história de Leda, uma professora universitária de meia-idade muito culta, mãe de duas filhas que vão morar com o pai no Canadá. De férias no litoral sul da Itália, ela fica obcecada por Nina, uma mulher napolitana que está grávida e tem uma filha pequena. Leda se revela ser uma mulher mesquinha, mas isso não significa que ela seja uma má pessoa. As mulheres de Ferrante sempre são humanas e falam aquilo que não temos coragem de dizer em voz alta. 

A maternidade, por exemplo, é retratada nos livros como algo dúbio e agridoce, longe de uma experiência romantizada. As mulheres questionam esse papel, mas não de uma forma feminista explícita. Está nas entrelinhas, nas decisões. Lila, da tetralogia, repulsa o primeiro filho por todo o contexto em que ele foi gerado: um casamento infeliz e abusivo, em um bairro pobre e violento, com poucas chances de um futuro feliz. Para Leda, a maternidade é uma competição com as filhas, é observar os anos passarem como se a juventude delas a sugasse. Enquanto a adolescente Giovanna de A Vida Mentirosa dos Adultos (2019) (meu segundo livro favorito) sente vergonha da fraqueza da mãe após o divórcio. Na obra de Ferrante, as mães estão sempre devendo ou perdendo algo, mesmo que a maternidade renda momentos felizes.

Texto, homens e mulheres

Outro ponto alto dos livros é o texto. Elena escreve muito bem. Fiz um curso ano passado com a pesquisadora e crítica literária Fabiane Secches, autora de Elena Ferrante – Uma longa experiência de ausência, que disse uma frase que me marcou. Fabiane falou que, como crítica, tende a perceber excessos e palavras mal colocadas nos textos, mas na obra de Elena isso não acontece. As palavras são bem escolhidas e o enredo é costurado para fisgar quem lê. Por isso, a gente começa a ler Amiga Genial e não consegue parar até o último livro. Ela tem o talento de manter atenção e apresentar os personagens aos poucos, revelando o que há por dentro da casca. Nem mesmo os irmãos Solara da tetralogia são completamente odiosos. Todos carregam cicatrizes de uma vida que pouco oferece e muito cobra.

Mesmo que os livros tenham personagens de diferentes classes sociais e consciência política, a crueza do ambiente onde vivem os atinge. Nápoles, por exemplo, faz parte das obras de uma forma bastante ativa. A cidade do Sul da Itália está sempre presente na narrativa, trazendo seu melhor seu pior, aproximando e afastando realidades, levantando questionamentos sobre o abismo provocado pelo capitalismo. O bairro onde Lila e Lenu crescem na tetralogia, por exemplo, une e separa as protagonistas. As duas se sentem deslocadas, mas uma acredita que é preciso ficar ali pra mudar, enquanto a outra sonha em escapar da realidade dura marcada pela violência e injustiça. Ao mesmo tempo, o mar encanta e representa liberdade, um deslocamento da dura realidade, onde os sonhos são possíveis e as personagens podem experimentar ser diferentes. 

Admiro ainda a coragem e crueza com que ela trata relacionamentos e homens na obra, que são impulsivos e, na maioria das vezes, despreparados para a vida. A pessoa que lê não saberá o que se passa na cabeça deles, mas entende que reagem conforme se espera, independente de serem cultos ou não. Eles são humanos, provedores, violentos e, sobretudo, frágeis. São retratos do ambiente onde vivem e seguem sua trajetória sem pouco direito de escolha (há exceções, claro). Eu tenho empatia por eles, o que não é comum com quem conversei sobre as obras. Pra mim, o machismo endurece a todos e faz com que escondam as mágoas e dores, também os coloca na posição de vítimas. (Um parêntese aleatório: Acredito que Lenu se apaixona por Nino na tetralogia justamente por ele ser uma figura masculina muito distante do que ela estava habituada e que representa tudo que ela queria ter). Pra mim, os homens nos livros de Ferrante são reação enquanto as mulheres intelecto. 

Lembro que o feminismo não é uma temática forte nos romances, embora apareça nas entrelinhas. Nós conhecemos a pressão sobre as mulheres e compreendemos que elas perdem e sofrem por viverem em um país machista, como a Itália. Elas não levantam bandeiras e o quando o fazem se sentem inseguras (a não ser Lila) por saberem o quanto isso é agressivo e revelador. 

Todos esses fatores me fizeram fã das obras de Ferrante e me motivaram a escrever sobre o tema. Não me considero uma especialista, mas estou obcecada por ela desde o ano passado e tenho ouvido, lido e assistido tudo que posso referente a ela. Incluo alguns links que podem ser interessantes para complementar a leitura. 

Também convido a deixarem comentários sobre o que vocês acham da obra e se concordam ou discordam com essas impressões. 

Referências:

Textos

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