Carol Passos

Crônicas e percepções. Nem tudo que escrevo aqui é real

Meu pai e minha mãe no pé de pêssego. Foto Jackson Kogg

cresci em uma casa cercada por plantas, um quintal gigantesco, maior do que você pode imaginar. tínhamos animais que não eram gatos, mas cachorros, periquitos, canários, coelho, ovelhas, porcos e galinhas. 

as ovelhas não eram muitas e tinham nomes engraçados inspirados em pessoas reais. os canários eram chamados como jogadores de futebol da seleção francesa. os porcos, periquitos e o coelho não eram batizados. 

as ovelhas conviviam mais perto da nossa casa e, assim, ficava mais fácil de compreender as personalidades e ver o quanto eram inteligentes.

ovelhas reconhecem os rostos e atendem a chamados. eu nunca comi carne de ovelha, pois sempre me chocou essa proximidade acabar com o animal sangrando de ponta-cabeça em uma das árvores do quintal. 

uma das ovelhas, um dia, teve filhotes gêmeos. um macho e uma fêmea. o macho era fraco e não tinha forças pra mamar. meu pai conseguiu uma mamadeira e eu pude dar leite pra ele. eu lembro do cheiro daqueles animais e hoje quando tenho a oportunidade de revisitar o quintal da nossa antiga casa lembro daquele dia. 

no inverno e, eu e meu irmão, quando imaginávamos que haveria geada, deixávamos um balde com água pra ver se ela congelava de madrugada. quebrávamos a fina camada de gelo pela manhã. 

num dia como esse de frio congelante nasceram os gêmeos e dava dó ver o bebê tentar se equilibrar fraquinho pra mamar. quando nasciam os filhotes acordávamos cedo pra ver.

ovelhas nascem com o rabo comprido e chacoalham como cães. elas logo se levantam e são capazes de dar pequenos saltos nas primeiras horas depois do nascimento, além disso, a pelagem é muito bonita. elas caminham sempre junto da mãe e berram de um jeito engraçado.

os pés de pêssego ficam lotados de flores e a goiabeira se entorta quando dá frutos. hoje os únicos animais domésticos que ocupam o quintal são os gatos da inquilina que alugou a nossa casa. conhecedora de gatos como sou imagino que, pra eles, é um paraíso ter tantas árvores e grama pra brincar. minha casa fica metros afastada da rua, por isso só se ouve o som do vento nas árvores e as luzes só se acendem quando a gente quer. um verdadeiro céu pra animais tão silenciosos.

nosso quintal já foi modificado muitas vezes conforme a vontade do meu pai. já tivemos até uma quadra de basquete e um balanço, que hoje não pode ser usado porque está desgastado demais. nunca precisei brincar na rua porque havia muito espaço a ser explorado e lá no fundo havia ainda um pequeno lago artificial que chamávamos de “tanque”, mas que as crianças visitavam pouco.

eu gosto de lembrar que tivemos ovelhas, que elas tinham nome de gente. infelizmente a única que eu lembro é o da Arolda, que era uma ovelha marrom. nesses dias de isolamento, gosto de olhar fotos daquele quintal, de lembrar do cheiro da casa e de tudo que vivemos naquele mundo tão particular. foi lá que vi neve pela primeira vez. eu gosto de morar perto do mar e do calor, mas quando quero me sentir feliz retorno a memória àquele mato e tudo que ainda existe por lá.

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