Carol Passos

Crônicas e percepções. Nem tudo que escrevo aqui é real

Arte por Ricardo Ampudia

eu parei de ler horóscopo, de acreditar em trocas de energias, retiros espirituais e no poder da mente. com a descrença, ganhei uns 10 anos e hoje aparento finalmente ter quase 40 anos. quando me olho no espelho vejo um cansaço que me obriga me deitar de olhos fechados e esperar passar. eu durmo e fico em silêncio ouvindo podcast ou música. 

minha única crença atual é na abertura do meu corpo que a iyengar yoga me proporciona, no meu médico, na minha terapeuta e no carinho das pessoas que amo. no amor nunca deixei de acreditar.

eu duvido de mim mesma, da minha capacidade. eu me apego a histórias parecidas com a minha para acreditar e tenho uma inspiração próxima que me diz: “as coisas vão melhorar, mas leva tempo”.

eu me divido entre tentar controlar o meu cérebro, mas parece que troquei as pilhas fracas de lugar pra aproveitá-las ao máximo. por isso, de vez em quando, eu preciso me deitar e fechar os olhos, pois até a luz é informação demais.

não deixei de ter humor, de ser inteligente ou criativa, mantenho o olhar atento a belezas e sensibilidades. eu sorrio com a alegria de quem eu gosto, consigo organizar coisas, mas de vez em quando meu cérebro teima em falhar, tudo que tenho a fazer é me tratar e me acostumar a isso.

um dos grandes problemas de se ver e ser vista como alguém forte e leve é que, pra mim, é difícil quando preciso sair desse papel. eu me sinto uma farsa e me forço a ser quem eu era de qualquer forma, mesmo que meu cérebro não colabore. é uma luta desgastante e infantil.

compreender que eu estava me arriscando, andando em uma corda bamba tentando segurar todas as bandejas com as duas mãos, só foi possível após minha última crise. um momento que não desejo pra ninguém, mas vou tentar descrever. parece que o fim chegou. o fim de tudo e você é responsável por isso. não há o que fazer. está exposto e escrito no seu rosto: fracasso.

então, eu entro num estágio em que as lágrimas não cessam. me sento no chão e me movimento pra frente e pra trás, tentando alcançar um dos gatos que vem me socorrer. minha respiração fica descompassada e eu não consigo voltar à realidade sozinha. eu fico numa briga interna tentando voltar “ao normal” sem precisar de medicação, mas após ingerir algumas gotas e eu consigo, pelo menos, parar de chorar e respirar de novo.

dizem que gatos são seres insensíveis, mas mesmo quando eu choro e demonstro meu sofrimento mais profundo, eles estão aqui. quando eu sinto necessidade de deitar, eles estão em cima de mim, do lado. todos os quatro unindo as forças e passando por cima de desavenças por mim.

por isso, continuo acreditando no amor em sua forma mais pura. eu já deixei de pensar no amor romântico e depois do diagnóstico entendi que, muitas vezes, confundi paixão com crises de ansiedade. 

lendo O Ar que Me Falta, consegui saber ao certo o que Luiz Schwarcz sentiu ao descobrir que não sabia que o medo que ele sentia não era igual ao das outras pessoas.

eu cresci confiando que a força em momentos difíceis como a morte do meu irmão e do meu pai era meu diferencial, que a sensibilidade me fazia especial e que isso tudo era importante manter. eu busquei tratamento quando temi que essa força estava esgotando. 

por força, quero dizer capacidade de tomar decisões quando todos os demais estão despedaçados, de chorar escondida no banheiro, mas nunca na frente de outro membro da minha familia. por sensibilidade, essa capacidade de compreensão e de ouvir todos com muita atenção, de me deslocar pra salvar alguém em risco sem pensar se eu mesma não estava me colocando em perigo, de preferir atender à dor dos outros e, assim, me desviar da minha.

certamente são qualidades que me levarão ao céu construído nas aulas de catequeses e que são importantes, pois me fizeram chegar até aqui, mas que hoje desencadeiam uma serie de pensamentos ruminantes. eu preciso estar pronta o tempo todo, eu antecipo problemas, eu me desvalorizo se não encontro uma solução rápida pra uma pergunta. eu choro por duas horas quando um filme me toca como se os personagens fossem meus amigos e eu não pudesse ajudá-los. eu acredito que se não arrumar a cama o caos vai se instalar – cá entre nós: foi o que aconteceu antes da última crise.

por mais que pareça aterrorizante tudo isso que escrevo, eu não me sinto assim o tempo todo. também nao culpo ninguém. eu não estou assim agora, por exemplo, e consigo escrever. são momentos que vêm, surgem e aumentam o peso do meu cérebro em uns três a quatro quilos, mas agora que eu sei o que se passa, entendo que nada está acabando por minha culpa. eu só preciso voltar ao presente.

se eu escrevo sobre isso é porque estou me aceitando, finalmente confiando que as coisas vão ficar bem. eu não confio em muita coisa porque tentei várias alternativas até chegar para minha terapeuta numa noite de quinta-feira e revelar que estava em sofrimento e nada mais me ajudava.

até então, eu escolhia os temas das nossas conversas e gostava muito de entretê-la com casos amorosos que não deram certo ou até mesmo com decisões importantes que eu precisava tomar. eu escondia da única pessoa que eu pago para ser eu mesma que eu não era a mesma. (pode rir porque isso é engraçado e confuso).

é estranho sair do silêncio absoluto para postar na internet que estou tratando a depressão. meu cérebro ainda fica trazendo mensagens de que há pessoas morrendo e passando fome, por isso, tudo que eu escrevo é uma grande bobagem. eu tento fugir desse automenosprezo porque entendo que minha vida é importante, não pros outros, mas pra mim.

quem me conhece de verdade sabe que eu odeio que sintam pena de mim, que isso é o pior que uma pessoa pode expressar. eu sempre lutei pra ter tudo que eu tenho, sempre corri atrás de muitas coisas e me reconstruí não sei quantas vezes. começar, caminhar, terminar são fases que eu conheço bem. 

eu amo ser mulher, amo tudo que eu conquistei na cara e na coragem. tenho um trabalho que adoro, amigos que eu amo demais, uma família que me acolhe independente de eu ser diferente e que eu guardo no meu peito. além disso, tenho meus gatos, que são o mais próximo do amor verdadeiro que eu já tive, sem contar amigos e família.

tudo isso é suficiente pra mim. eu me considero vitoriosa, pois construí o destino que eu mesma queria. e ainda consigo rir de mim mesma, das minhas paranóias que passei a dividir com meus amigos. o humor e escrever me ajudam tanto quando a yoga e a comida deliciosa que eu encomendo semanalmente. eu penso: tem amor aqui.

tem vida no meu prédio, tem casais que se amam verdadeiramente e que eu vejo eles progredirem, tem pessoas crescendo profissionalmente e fico feliz de saber que há um pouco de mim nesse processo. tenho uma chefe que me ouve sem julgamentos e me recomenda descansar. eu peço todos os dias pro meu cérebro lembrar disso e me permitir ter força, encontrar em tudo isso vontade e o prazer que a doença me tira de vez em quando.

a vida é certamente uma série de términos. eu aprendi isso a muito custo e tristeza. tudo começa e termina, por isso leio muito sobre luto e esse é um assunto que me interessa. compreender e aceitar a finitude é um passo importante pra encontrar sentido. o sofrimento não é bonito, nem glamuroso, mas tem fim.

4 comentários sobre “finitude

  1. tessiamendes disse:

    Obrigada por estar no presente e escrevendo o que eu precisava ler. 😉

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    1. carolpassos disse:

      espero que fique bem 💛 me ajuda muito saber que estou fazendo o bem o pra alguém. obrigada por escrever esse comentário

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  2. jornaldoyoa disse:

    Vim aqui prestigiar a minha amiga que sempre me prestigia. Eis uma talento da escrita, jornalística, literária ou autobiográfica. Vou te dar um conselho que meu pai me deu, e eu não segui – mas pra ti encaixa como uma luva: escreve mais filha, escreve mais ❤

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    1. carolpassos disse:

      obrigada, amiga! quem será que escreveu esse comentário? haha

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